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25 setembro 2011

OSSA - Toccata e Fuga em Ré Menor - J. B. Bach BWV 565

Ontem tive mais uma vez, o incrível privilégio de poder assistir, com uns 15 amigos se não errei na contagem,  o concerto da Orquestra Sinfônica de Santo André no Teatro Municipal de Santo André, com a regência de Carlos Moreno. O que tocaram? Bem, para começar uma transcrição absurdamente incrível da mais famosa de todas as fugas de Bach (se não da História), a famosa Toccata e Fuga em Ré Menor (BWV 565); já ouvi ela para órgão, tenho uma gravação que talvez futuramente publique que é absurdamente incrível, é um órgão do tipo que faz seus ossos saltarem da pele; já ouvi esta tocada por grupos de metais como o German Brass entre outros, fantásticos. Mas esta ontem da OSSA, caramba! A música ficou tão grandiosa quanto um imenso órgão habilmente tocado; deu para sentir na pele, aquela produção incrível desta música, uma mistura de um incrível PODER, TEMOR, GRANDIOSIDADE, de certo modo terrível, mas ao mesmo tempo cheio de beleza, suavidade, mas tudo isso gerado por um imenso impulso de muita energia e virtuosismo É como se estivessemos diante do trono e do próprio Deus, e toda clareza de nossa condição de criatura diante do Criador viesse a tona; é assombroso, mas ao mesmo tempo maravilhoso. Bach usa umas harmonias aqui, que parece distorncer o espaço, os elementos, parece que o próprio ar , os átomos em meio as notas e pedais longos entram numa agitação tão desordenada e incrível, é violento, parece que as rochas, a atmosfera irá rachar ao meio; é uma prova ao nosso coração permanecer inabalável, pois somos tomados por um pensamento de 'pequenez', "somos nada diante dEle"; é a glória fulminante de Deus. Bach! Bach! Bach! Simplesmente incrível. E nessa transcrição em especial, Zangheri, creio eu, que conseguiu intensificar e florescer ainda mais esses incríveis aspectos religiosos da filosofia cristã, numa concepção tão profunda que vemos ali a atmosfera das obras de Bach; tanto da imensa energia, articulações até mesmo violentas dos os Concertos de Brandemburgo n. 3 e 5, quanto a atmosfera profunda, divina e celeste da Air, quanto a beleza, suavidade da bela melodia de Jesus Alegria Dos Homens.


Creio que eu e todos que estiveram ali agradecem pela incrível e inspirada transcrição que Gláucio Adriano Zangheri fez. Parabens a ele, a Orquestra Sinfonica de Santo André, a toda a sua direção, e sobretudo, a Deus, que inspirou homens como Bach a compor, e todos estes mencionados a realizar este trabalho, e nos dar a oportunidade de contemplar e refletir sobre isso.


Infelizmente, a gravação deixa muito na qualidade, pois foi num pobre celular muito antigo, que grava em mono em 64 kbps, e certamente como o OMH ridículo. Acho que este trabalho, a OSSA deveria divulgar pois fizeram uma gravação profissional, com uma verdadeira qualidade acústica. Aliás, este concerto, e muitos outros trabalhos realizados, destaco o concerto para piano numero 1 de Franz Liszt, o 1º movimento da 9ª de Dvorak, o 1º da Sinfonia 6 de Bruckner, o 3º da 8ª de Bruckner, a Sinfonia 9 de Bruckner, que foram este ano, além de algumas no passado, como a Sagração da Primavera ano passado, a Sinfonia 1 e 4 de Bruckner que ficaram absurdamente incríveis! Mas se mesmo nessa gravação ficou 'assim' (ao meu ver está com um som muito bom), imagine ao vivo!!! A sonoridade, afinação dessa orquestra está cada vez melhor.


Boa apreciação!
Observação: Uma baqueta dos tímpanos até quebrou na execução, de tamanha a energia que foi.



Após "ISTO", a OSSA ainda apresentou a 3ª Sinfonia de Anton Bruckner, a dedicada a Richard Wagner. Uma obra também simplesmente incrível, grandiosa tão quão, mas ao modo Bruckneriano, que exigiu muito ar dos metaleiros, deixando-os bemmm vermelhos; todavia, o primeiro movimento não gostei muito, ficou um pouco cansativo as muitas repetições do tema principal, ficou um pouco a desejar aquele senso de 'continuidade' e de 'desenvolvimento' da música, as vezes sendo retrógrado, algumas passagens perdeu a beleza que ouvi em outras gravações, gosto muito, mas muito mesmo, de uma de Celibidache com a Filarmônica de Munique EMI. Todavia, gostei muito dos demais movimentos, sobretudo do último movimento. Além disso, foi incrível ver os tímpanos dobrando as notas, mesmo as muito rápidas, e perfeitamente sincronizado; mas claramente, é uma obra que deixou com gosto para se ouvir na acústica de um sação enorme de colunas e pedras de uma catedral. Bem, mas esta obra deixo para falar em outra ocasião.

Uma boa gravação realizada no concerto na Catedral da Igreja do Carmo em Santo André
(olha a sonoridade!!!)

Parte 1

Parte2


31 agosto 2011

Música para violino e piano

Temos aqui um pouco de Bach, Brahms, Ravel, Chausson e Waxman, nas mãos de Sergey Khachatryan. Tenho que dizer que é muito bonito, nada que me tire o folego como muita coisa que já para violino. Não gostei muito do timbre acho, um pouco 'metálico' para o meu gosto, me lembra um serrote, nas notas longas; e acho que faltou um pouco de inspiração nas dinâmicas, são feitas, mas sempre de modo 'súbito', fica parecendo que faz só porque está escrito na partitura. Músicas muito bem executadas, mas pouco inspiradas (frias) aos meus ouvidos, talvez coisas do próprio repertório por não conhecê-lo. Todavia, a do Bach (a 5ª) é bem bonita. Todavia, Bach é Bach, até uma criança com 1 ano de violino tocando "Jesus Alegria dos Homens" fica bonito. Mas fica aí uma sugestão para de um album de solo de violino. Mas a musica 5 e 6 valem bastante a pena (Bach e Ravel).


Fonte: PQP Bach

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28 janeiro 2011

Air on the G String - J. S. Bach

Esta ai a melhor interpretação que já vi da famosa "Air" do Bach, com a fila de Berlim. Infelizmente, só podemos apreciar um trecho da música, para ver o resto, são 2 euros. É uma música que faz juz ao ditado de que Bach é o quinto Evangelho.

16 outubro 2010

Toccata e Fuga em D menor - Bach

Olha só essa versão tocada pelo quinteto de metais Canadian Brass:



Mas eu prefiro esta versão do German Brass (porem, possuem um nipe bem maior, que fecha melhor a harmonia)

26 janeiro 2010

O Quinto Evangelista (Bach)

A música de Bach não é produto de um homem nem a obra de uma geração, mas o resultado de longo trabalho em comum. Alguns séculos de polifonia colocaram em suas mãos uma linguagem, um estilo e uma compreensão do mundo. Com esses elementos, já trabalhados por grandes e nobres espíritos, a sua missão ficou facilitada e não lhe foi difícil dar o melhor de si ao mundo. Fê-lo com a simplicidade e a humildade com que as árvores oferecem os seus frutos e os pássaros enriquecem a paisagem do amanhecer com os seus cantos. Teve mestres, é certo; mas entre o que os professores lhe ensinaram e o que nos ensinou a todos nós, seus alunos, há uma diferença maior que a existente entre a luz da vela e a do sol. Bach, como um demiurgo, tirou o seu mundo de si mesmo. O seu poder de criação era tal, que se diria ter nele se refugiado o “fiat” divino para poder ampliar as fronteiras do mundo.

Eisenach foi, bem a propósito, o seu berço natal. Ali, no castelo de Wartburg, algum tempo antes, Lutero havia se recolhido para traçar os planos da Reforma. Em tudo ainda sentia a lembrança de Santa Isabel, cuja virtude era, principalmente, um exemplo de amor à humanidade, pobre, infeliz e pecadora... O mesmo espírito que presidiu à Reforma foi o que deu vida e força à sua obra: a paixão pelo Cristianismo na pureza primitiva. Só quando o espírito de uma época se impregna de tal forma de um ideal que passa a tirar dele a sua seiva e sua vida, é que se torna possível o aparecimento de grandes obras de arte. Cria-se, assim, ao lado de uma linguagem comum, um mundo de anseios a serem expressados, definidos. O grande destino histórico de Bach foi oferecer-nos uma versão musical do Cristianismo. Os pintores do Renascimento, os seus escultores e arquitetos, cuidaram de fixar o espírito cristão em linhas, cores e volumes. Bach transformou o Cristianismo em som. E essa versão é, sem dúvida, a mais fiel, a mais pura e a mais profunda. Há, entre a música e a religião, um parentesco íntimo. Em ambas o que vale é o que não se vê, o real é o que está acima dos nossos sentidos. O reino da religião não é o mundo físico: seu domínio começa justamente onde termina nossa capacidade de ver, de compreender e de sentir. A religião é uma linguagem além das palavras, uma ponte que nos liga ao mundo que nossos pés não podem atingir, mas onde a nossa alma se sente como em sua própria pátria. Música e religião representam um esforço no sentido do homem libertar-se do frio e imutável silencio que os cerca, de entrar em entendimento com os fantasmas que o rodeiam.

A música, como toda linguagem, é uma criação coletiva, uma convenção geralmente aceita. Onde cada qual inventa sua linguagem, ninguém se entende. Há sempre uma Torre de Babel no fim de toda cultura: o povo que deixa de ter uma linguagem o comum, deixa de ter, também, um mesmo destino. O Cristianismo foi a grande paixão do tempo de Bach. Ele é protestante no exato sentido de Lutero: o seu desejo era o retorno a verdadeira doutrina de Cristo, isenta das adaptações e das interpretações dos padres. A sua música fixa e exalta de tal forma esse sentimento que dá a impressão de uma longa prece, que sobe aos Céus e vai até os pés de Deus. A linguagem de Bach alcançou uma significação universal porque é a expressão do anseio e da esperança do imutável coração humano. Não apenas as suas energias, mas todas as forças espirituais do seu tempo se reuniram em torno da criação do seu estilo – esse majestoso e imponente barroco, tão propício à fixação das altas e luminosas visões do espírito. Foi nesse estilo, no estilo de suas cantatas, que o Aleijadinho plasmou, nas nossas igrejas, a mensagem mais alta da sua sensibilidade, inspirada no mesmo espírito cristão, feito de compreensão e bondade. O barroco não é uma linguagem para as idéias comuns, para a descolorida existência de cada dia. Não é um estilo para a construção de choupanas, mas de palácios e catedrais. A sua base é a valorização do espírito, do conteúdo. A idéia deve ser tão densa, tão violentamente presente, que força a matéria e a subjuga. As estátuas barrocas são ta grávidas de espírito que chega a curvar-se ao seu peso. Os padres de Congonhas do Campo que se queixam de que os fiéis não podiam rezar diante dos Profetas do Aleijadinho, pois o seu altar ameaçador lhes conturbava a alma, nela derramando a semente do temor. E os afrescos de Miguel Ângelo na Capela Sixtina tiravam àquele recanto, segundo alguns padres, acolhedor, pois perturbava mesmo os espíritos mais bem formados. Também as cantatas de Bach nos arrastam para um mundo de estranhas, majestosas e fantásticas visões. Bach levou o estilo barroco às ultimas conseqüências. A sua polifonia é tão intrincada, a floresta de sua música é tão densa, que os próprios contemporâneos não chegaram a perceber sua selvagem beleza. Ele é tão claro e ardente quanto o sol, que ninguém consegue fixar a olho descoberto. Foi necessário que a névoa do tempo se interpusesse entre ele e nós para podemos contemplar o seu fulgurante esplendor. Como o de Miguel Ângelo, o barroco de Bach é a vida em plenitude, a vida na sua impetuosidade de anseios, de beleza, de miséria e de infinita beleza. Não é uma arte para receio, mas para o trabalho, o duro do trabalho do espírito, uma convocação de todas as forças interiores. Bach sentiu a música como religião, como larga porta aberta para o infinito, através da qual é dada ao homem, para consolar-se de sua miséria e das suas fraquezas, comunicar-se com as forças superiores, o mundo dos seus anseios, a pátria das suas íntimas esperanças.

A música nada afirma e nada nega. Como a terra ela é fria, mas constitui a fonte de toda a vida. A Natureza, que a inventou, criou-a à semelhança das flores e das altas nuvens que passeiam pelo céu, por sobre os altos cumes. Na sua mudez ela fala mais do que as palavras, diz melhor do que a lágrima e o sorriso. É ouvindo uma cantata de Bach que somos tocados pela compreensão de nossa presença no mundo e do sentido do nosso destino. Fomos feitos, como os pássaros, para alegrar a perene festa da vida e, como as flores, para enfeitar os berços e os túmulos. A nossa missão é cantar, como os regatos, a doce melodia interior e refletir, o mistério lado de nossa alma, a longínqua e solitária luz das estrelas. A música de Bach é uma versão universalizada do Cristianismo: um cristianismo para todos os homens, mesmo os que não crêem. O seu mais alto desejo foi chegar a Deus. E conseguiu esse intento libertando-se de toda contingência humana. No fim seremos o que fomos no primeiro dia. Esquecido das palavras e desprezando o ensinamento dos mestres, Bach buscou traduzir em música o sentimento do mundo. E o fez com tanta força e sinceridade, que é, ainda hoje, através dessa sua milagrosa escada que podemos chegar ao Céu e falar com Deus.

Nada nos dá uma idéia mais verdadeira do destino humano que a música. O seu denso mistério também é o nosso; o seu mundo de sugestões é o mesmo que existe em nossa alma; a sua espantosa beleza é a que se abre aos nossos olhos como uma visão; o seu encantamento é a mesma sedução que nos prende, como folhas batidas pela fúria da tempestade à frágil haste da vida.

Não se pode dizer que Bach foi o maior dos músicos, porque não há fita métrica para medir o gênio. E como as árvores, os homens devem ser avaliados, não pela sua aparência, mas pelas raízes que tem sobre a terra. Essas raízes são o sustentáculo contra o vendaval do tempo, que tudo leva de roldão. Nesse sentido Bach dispõe de uma situação privilegiada. A sua fortaleza é uma glória inexpugnável. Não é que não tenha defeitos. Como todo artista barroco, Bach é, muitas vezes, difícil, intrincado e obscuro. A críticas que, nesse sentido, lhe fez Scheibe, seu contemporâneo, são precedentes, apesar de exageradas. Já no fim da vida Bach assistiu a vitória do estilo que desbancara o seu, e de que havia sido a mais alta e nobre expressão, baseado nos recursos do contraponto e da fuga, e a cujos cultores se referia ironicamente Telemann, vendo neles “velhos que contraponteiam indefinidamente, mas que são desprovidos de capacidade de invenção e escrevem a quinze ou vinte vozes obrigadas, e em que o próprio Diógenes, com sua lanterna, não encontraria uma gota de melodia.”

Bach é denso e impenetrável como uma floresta tropical. Os que, no entanto se aventuram a enfrentar os perigos dessa selva, descobrem nos eu interior maravilhosas estradas, calçadas de pedrarias raras e atapetadas de flores, que nos induzem a distantes e misteriosos países.

Os evangelistas procuraram, através de palavras, trazer até nos a lição de Cristo. Bach compreendeu o quão imperfeitamente foi cumprida essa missão. O espírito do Filho do Homem foi tão torcido, tão desvirtuado, traduzido de forma tão incompleta que, ao invés de semear a paz, a eles trouxe mais discórdias, mais desavenças e ódios maiores. Dispo-se, então, o compositor, a nos dar uma outra versão do ensinamento de Cristo. Na sua obra Jesus surge na sublime apoteose da pureza, como um igual dos homens, capaz de sentir as dores e alegrias, e, sobretudo, de a todos perdoar os pecados e as fraquezas, que são contingências de nossa natureza e símbolos do nosso nada. Desde o “Oratório de Natal” até as “Paixões”, Bach acompanha toda vida de Jesus. Nunca o espírito de Cristo foi tão bem fixado quanto na música. Esta se apresenta tão rica de conteúdo humano, de bondade e de perdão que dá a impressão de uma longa, iluminada e infinita benção que cai sobre todos os homens, indiferentes às suas crenças e aos seus preconceitos. A música é a linguagem absoluta. Ouvindo as “Paixões” de Bach, percebemos que o sacrifício de Jesus não é senão o símbolo da grande tragédia, de que somos todos mártires obscuros e inconscientes. A vida humana só tem sentido quando é a concretização de uma idéia. Só há verdadeira grandeza no destino que se realiza. A lição essencial de Cristo consiste na valorização do espírito, sem cuja presença nada tem sentido. Bach leva essas premissas às últimas conseqüências. A sua música é o Espírito Santo que desceu à terra e passou a habitar entre nós.

E através de Bach que entendemos o verdadeiro segredo da música. O homem é, no fundo, um animal irracional. A razão é, em nós, apenas a superfície. No nosso íntimo, conservamo-nos tão selvagens quanto os animais bravios, rudes como as cachoeiras que se lançam furiosa contra as abruptas pedras, e laboriosos como as sementes que se transformam em folhas, flores e frutos. Guardamos, no nosso mundo interior, ressonâncias vagas de quando morávamos no fundo do mar; do tempo em que perscrutávamos a selva e conhecíamos o seus avisos; das lutas pelo domínio da terra e de suas misteriosas forças. A música é uma evocação desses tempos em que não existiam nem palavras, nem razão. Uma linguagem tão nossa, tão familiar e acolhedora como um abraço de mãe. Sendo um produto do inconsciente, a ele se dirigindo, a música é intuitiva, independendo de aprendizado. E aquele que não tiver, no labirinto de sua alma, a fonte criadora. Inútil buscará o sucedâneo. A capacidade criadora nada tem a ver com a inteligência. Ela é uma ruminação interior, em cuja elaboração a nossa participação consciente é nula. A mais alta inteligência é capaz de produzir a menor obra de arte. Mas ao artista não compete apenas criar, mas fixar a criação. Bach compreendeu, como nenhum outro músico, a importância da técnica, que coloca o artista em situação de aproveitar, em plenitude, suas inspirações. Para ele, todo artista deve ser, um artesão, um profundo conhecedor do seu “métier”, cuja técnica precisa dominar completamente. Essa técnica deve ser adotada ao que tem de fixar. Nesse sentido, deu-nos impressionante lição de coragem ao desprezar as regras tradicionais que lhe impediram a livre expressões das idéias. A sua harmonia tem mais flexibilidade que a do seus contemporâneos adotando-se melhor ao seus fins. “Aparentemente” – nota Forkel o primeiro do seus biógrafos – “infringia com isso todas as regras tradicionais e tidas por sagradas em seu tempo, mas não as infringia de fato, pois realizava perfeitamente a finalidade dessas regras, que só podem ter por objeto a pureza da harmonia e da melodia, ou seja, das sucessivas e coexistente eufonias, embora o fizesse por caminhos insólitos”. As liberdades técnicas não eram ,aliás, raras na família Bach. Muito antes de Johann Sebastian, Johann Cristoph, organista da corte do município de Eisenach, escandalizou seus contemporâneos ao fazer uso, num motete de sua autoria, da sexta aumentada. As liberdades técnicas de Bach lhe trouxeram muitos dissabores. A 21 de fevereiro de 1706, por exemplo, quando era organista da Neue-Kirche, em Arnstadt, recebeu do Consistório séria advertência porque, até então, “havia feito, nos corais, muitas variações estranhas, misturando muitos tons alheios, tanto que a comunidade ficou confundida”. “Para o futuro – ordenava o consistório – deve se quiser introduzir um tonum peregrinum – permanecer no mesmo e não cair imediatamente em outra coisa, nem, como até agora tem feito, tocar um tonum contrarium”. O tonum peregrinum é, como se advinha, a modulação, e o tonum contrarium, a trova brusca de tonalidade. Também em Mülhlausen, Bach encontrou tal resistência à sua música que teve de deixar o posto de organista, que ocupou durante algum tempo. Justificando a deliberação de abandonar o cargo, confessou humildemente: “Tive sempre o pensamento de fazer progredir a música religiosa, para maior glória de Deus, mas não o tenho podido conseguir até o presente sem oposição”.

Durante toda a vida, Bach lutou contra essa incompreensão. Que acabou por amargar os seus dias, mas jamais lhe roubou a confiança em si mesmo.

O Barroco não se presta às confissões íntimas. O seu ambiente não é o das confissões, mas o dos feitos grandiosos e sublimes. Bach é um artista impessoal. Pouco ficamos sabendo dele através de sua obra. Ao contrário do românticos, que sempre falaram na primeira pessoa, usa, quando muito, a primeira do plural. Era a alma do seu tempo e do seu povo que se expressava na sua voz. Nunca ambicionou honrarias e glórias. Foi simples como todo aquele que tem real consciência da sua grandeza. Miguel Ângelo apenas assinou um dos seus trabalhos: a Pietà. Sentia que toda obra de arte é um produto da coletividade, do grupo humano, como a linguagem e os caminhos. Como o seu povo, Bach ambicionou servir a Deus. E foi esse o desejo que conduziu a sua música, por estradas iluminadas à mais sublime pureza. No “Orgelbüchlein”, em que reúne uma série de trabalhos compostos em Weimar, escreveu essa epígrafe:
“Para maior glória do Altíssimo
e melhor instrução do próximo”

E aos seus alunos da Escola de São Tomás ditou essa explicação do baixo cifrado: “O baixo cifrado é o mais perfeito fundamento da música, que a esquerda toca as notas indicadas, tomando a direita as consonâncias e dissonâncias, a fim de que surja uma agradável harmonia para a glória do Senhor e o prazer permitido à alma. Como a de toda música,a finalidade do baixo cifrado não deve ser outra senão a glória de Deus e a recreação da alma.

A música de Bach valorizava e purificava todos os temas. Em suas mãos os motivos mais comuns adquiriam brilho e o esplendor. Transformou, seguindo o exemplo de Lutero, canções licenciosas e picantes em corais piedosos, como veremos páginas adiante. Porém, mais extraordinário ainda é o fato de ter utilizado o tema da figura simbólica da sensualidade de “Hércules na Encruzilhada” na “Canção de Ninar”, com a qual a Virgem Maria, no “Oratório de Natal”, adormece o Menino Jesus. Ouvindo o “Oratório de Natal”, longe estamos de imaginar que se trata de simples colcha de retalhos: suas árias e coros, com apenas oito exceções, foram tirada das cantatas profanas “Lasst und sorgen”, “Tönet, ihr Pauken” e “Preise dein Glücke”, as quais, por sua vez, provavelmente, não foram escritas para libretos seculares. De tal maneira a música de Bach fixa a alegria da terra – dos homens simples e das almas puras, pela vinda do Salvador, que esse oratório continua ser o mais alto monumento musical sobre a Natividade. A música atinge, nele, a plenitude de humanidade e pureza.

A arte tem, sobre as demais atividades humanas, a vantagem de estar liberta das contingências do tempo. Um estudante de astronomia pode hoje refutar Aristóteles; muito da ciência de Platão faz rir, agora, ao aluno mais medíocre; um neófito de medicina muito teria a ensinar a Hipócrates. No terreno da Música, tudo se passa diferentemente. Há, sim, um torvelinho de escolas e estilos, de linguagens e expressões. Mas uma obra, como a de Bach, que expressa uma concepção de mundo e simboliza o sentido de uma época, jamais será superada. As gerações hão de reverenciá-las pelos séculos afora, como uma das mais altas expressões do espírito humano, que nela se fez música para viver além do tempo e levar a Deus a gratidão da humanidade, infinitamente valiosa, da vida.

Fonte: Sociedade Bach do Brasil

21 dezembro 2009

Requiem - Verdi - Dies irae & Tuba mirum

Sei que é natal, mas sinceramente poucas musicas natalinas ouvi e tenho tocado esses dias; e tenho-me voltado mais para corais sacros; algumas cantatas de Bach, e também o Requiem de Verdi.

E sinceramente, eu fiquei me foquei muito na de Verdi. Eu tenho um CD dele, mas nunca achei nada de extraordinário seu Requiem, apesar de ser famoso, muitos idolatrar esse Requiem; pois a interpretação e gravação que eu tinha, estava totalmente infeliz, se tornou uma obra opaca e sem vida, sem entusiasmo, sem penetração.

Até que surfando na Net me deparo com um video extraordinário gravado pela TV Cultura (a qualidade sonora deixa a desejar, mas "tem legenda da tradução do que cantam!!!!"); bem, eles gravaram a OSESP, o video apenas mostra a segunda e terceira música:
- Dies irae
- Tuba mirum

A "Dies irae" ela fala por si, ela tenta reproduzir toda seriedade, obscuridade, algo TREMENDO, que será o "Dia da Ira" (sim, o Dia do Juizo biblico...). A forma como já entra aqueles ataques fortes, BUM, BUM,BUM, e o coralzão com tudo; segurando aquele "irae" por vários tempos, numa harmonia e vibração (repare nos metais fazendo aqueles trinados), tornando a coisa extremamente sinistra, arrepiante. E ai, entra mais firme e grosso ainda; com a forte presença do timpano. E depois aquele sonelidade majestosa e anuncio extraordinário feito pelos metais no "Tuba mirum", no qual entram vários trompetes fora do palco, na sala São Paulo, preenchendo todo o local com um som penetrante.

É uma obra realmente fantástica!!! Para melhorar ainda mais, encontrei no PQP Bach um versão simplesmente extraordinária do Gardiner; onde ele explora toda a sonoridade da música, quase levando ao exagero a brutalidade sonora da música, o que ao meu ver, não ficou muito interessante é que o coral ficou meio opaco diante dos metais, era necessário mais peso no coral. E numa gravação, no qual a qualidade sonora saiu perfeita.

Aliás, é muito interessante comparar essas duas versões; melhor, duas interpretações. Dà para ver que nas duas houve pontos fortes, e outros que o outro ficou melhor. Como o comentário do PQP Bach no seu blog, o triste dessa obra, é que tráz uma certa raiva, pois nunca você vê uma interpretação perfeita, sempre você vê algo faltando, ora são os metais, ora os tenores, ora os baixos, ora os sopranos, ora os contraltos e por ai vai.



Versões de Gardiner (mp3):
- Dies iraes
- Tuba mirum

Versão do Karajan (Filaharmonica de Berlim):



Versão de Zubim Meta:


Versão de Toscanini:


Abbado


Bem, aproveitem bem. Há várias outras interpretações dessa música. No Youtube mesmo você encontra um leque enorme.

Interessante desse Requiem, é que esses dias ouvi alguns comentários ignorantes de quem acha que música antiga eram todas "funebres", "sonolentas", "desanimo", que não empolgam ou coisas do tipo. Claro, na verdade desconhecem tais. E certamente, o que ouviram, foi mal tocado e interpretado. Pois olhe bem para esse Requiem, escrito em torno de 130 anos atrás; me aponte uma música atual, que xegue a tal nivel de energia, e ao mesmo tempo drama, ação, até mesmo certo terror? - Certamente, nada vem a mente! Ainda mais se formos pensar em coral. Não tive a oportunidade - ainda - de ouvir ao vivo, mas acho que é as pessoas devem se segurar na poltrona, se encolher expremindo contra o encosto, arregalando os olhos de certo espanto até.

É uma obra dificil de se classificar como sacra; ela tem muito mais um carater de sedução de ópera e toda aquela energia e movimento italiano, do que algo realmente que transmite uma idéia mais sagrada e solene - apesar da letra. Contudo, há músicas que realmente são nitidamente sacras, como a introdução; de modo que fica dificil classificar. Mas eu diria que numa visão geral é sacra.

16 setembro 2008

Cantata Messiah H.n.43

Messiah, uma das mais extraordinárias cantatas da História; a qual foi um grande desafio para Bach. Uma das mais bem elaboradas, trabalhadas, composta e cantada.
Essa é uma das músicas (hino 43) entre tantas outras incríveis; contudo, destaco-a pela semantica, pintura, cores que há nessa música, e repertoria mesclada com a letra. É 10.

Música: I know that my Redeemer liveth - Aria

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